Ginecologistas e Mastologistas recomendada
O câncer de ovário é, talvez, um dos maiores desafios diagnósticos da ginecologia oncológica contemporânea. Diferente do colo do útero, que dispõe do rastreamento citopatológico (Papanicolau) consolidado, ou da mama, com a mamografia, o ovário não possui um exame de screening de massa com alta sensibilidade e especificidade para populações assintomáticas. O resultado dessa lacuna biológica e técnica é estatisticamente severo: cerca de 75% dos casos são detectados em estádios avançados (III ou IV), quando a doença já ultrapassou os limites da pelve.
O grande entrave não é a ausência de sinais, mas a inespecificidade deles. Imagine uma paciente de 55 anos, em plena transição para a pós-menopausa, que queixa-se de distensão abdominal persistente, sensação de empanzinamento e uma leve urgência urinária. Em um cenário de pronto atendimento ou clínica geral, esses sintomas são frequentemente atribuídos à síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares ou cistites. No entanto, na ginecologia especializada, aprendemos que a persistência desses “sintomas vagos” por mais de 12 ou 15 dias no mês é um sinal de alerta que exige investigação imediata.
Do ponto de vista técnico, a biologia do carcinoma seroso de alto grau — o subtipo mais comum e agressivo — é caracterizada por uma disseminação celômica. As células neoplásicas se desprendem do ovário ou das fímbrias das tubas uterinas e navegam pelo fluido peritoneal, podendo causar pequenos implantes no epíplon e nas superfícies serosas. Esse processo gera a ascite (acúmulo de líquido), que é a causa real do inchaço abdominal que a paciente relata. Quando a mulher percebe o aumento do volume abdominal, muitas vezes já estamos diante de uma carcinomatose peritoneal. A tríade de investigação inicial Quando a suspeita clínica é levantada, a propedêutica deve ser ágil e estruturada. Não podemos nos dar ao luxo de “esperar o próximo ciclo” para reavaliar.
A abordagem padrão envolve: Ultrassonografia Transvaginal com Doppler: É a nossa primeira linha. Buscamos por massas anexiais complexas, septos espessos, projeções papilares e vascularização interna de baixa resistência. O uso do índice IOTA (International Ovarian Tumor Analysis) ajuda a estratificar o risco de malignidade com maior precisão. Marcadores Tumorais (CA-125): Embora seja o marcador clássico, ele exige cautela interpretativa. Em mulheres pré-menopausadas, o CA-125 pode elevar-se por endometriose, miomas ou processos inflamatórios pélvicos. Contudo, em mulheres após a menopausa, uma elevação significativa associada a uma imagem suspeita é um preditor fortíssimo de malignidade. Tomografia de Abdome e Pelve: Essencial para o estadiamento.
Ela nos permite visualizar se há comprometimento de linfonodos, implantes no diafragma ou metástases hepáticas, fundamentando a decisão entre uma cirurgia de citorredução primária ou quimioterapia neoadjuvante. Um ponto crítico que frequentemente discutimos em consultório é a genética. Cerca de 15% a 20% dos cânceres epiteliais de ovário estão ligados a mutações germinativas, principalmente nos genes BRCA1 e BRCA2. Isso significa que o histórico familiar de câncer de mama, ovário, próstata ou pâncreas não é apenas um detalhe na anamnese, mas uma ferramenta de estratificação de risco. Para pacientes com mutação confirmada, a cirurgia redutora de risco (salpingo-oforectomia profilática) após a prole constituída é a única estratégia que realmente impacta a mortalidade.